Leia isto antes de qualquer outra coisa
Quando alguém é confrontado por uma injustiça, a conversa pode mudar de direção: em vez de responder pelo que fez, nega, ataca quem perguntou, acusa essa pessoa de fazer o mesmo ou se apresenta como a verdadeira vítima. A culpa passa de mão, a pergunta original some e quem pediu explicações acaba tendo de se defender.
Isso pode acontecer numa relação, no trabalho, numa discussão política ou dentro de uma instituição. Nem toda reação defensiva é uma manipulação, e uma acusação não se torna verdadeira só porque a resposta foi ruim. Ainda assim, quando o foco sai repetidamente da conduta e das evidências para a suposta falha de caráter de quem a denuncia, vale interromper o movimento: o que aconteceu, o que sabemos e qual pergunta continua sem resposta?
Inversão de culpa, ataques pessoais, projeção, DARVO e tentativas persistentes de fazer alguém duvidar da própria percepção podem aparecer juntos. Conhecer esses padrões ajuda a reconhecê-los, mas não autoriza diagnosticar alguém nem concluir, sem apuração, quem está dizendo a verdade.
Não confie em mim. Questione minhas palavras, investigue minhas afirmações e tire suas próprias conclusões.
Antes de ler qualquer outro texto deste blog, quero fazer um pedido: não acredite em algo simplesmente porque fui eu quem escreveu. Não concorde comigo apenas porque compartilhamos valores, opiniões ou posicionamentos políticos. Não tome minhas palavras como verdade só porque apresento números, estudos, referências ou argumentos aparentemente convincentes.
Eu posso estar errado. Posso interpretar informações de maneira equivocada, desconhecer fatos importantes, utilizar fontes incompletas ou ser influenciado pelos meus próprios vieses. E você também.
Eu também não confio plenamente na minha memória: erro em metade das vezes.
Em O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas, Leonard Mlodinow explora como o acaso interfere em situações que costumamos explicar apenas pela habilidade, pelo mérito ou por uma narrativa construída depois dos fatos. O livro ajuda a lembrar que encontrar um padrão não prova, por si só, que entendemos o que aconteceu.
Mas quero ir além: posso estar manipulando você neste exato momento, de forma voluntária ou não.
Posso estar escolhendo cuidadosamente cada palavra para despertar sua confiança, provocar emoções ou conduzir seu pensamento até uma conclusão que me interessa. Posso selecionar apenas os fatos que favorecem minhas convicções, omitir informações inconvenientes ou organizar argumentos de maneira que pareçam irrefutáveis.
Posso até começar dizendo para você não confiar em mim justamente para parecer uma pessoa honesta e conquistar sua confiança.
Percebe o problema?
Isso não significa que eu esteja necessariamente fazendo alguma dessas coisas. Significa que você não deveria aceitar minhas intenções declaradas como prova da minha honestidade.
Esse cuidado não deve se limitar a este blog. Ele se aplica a jornalistas, políticos, influenciadores, religiosos, empresários, pesquisadores, instituições, amigos, familiares e até pessoas que admiramos profundamente.
Não estou defendendo que todas essas pessoas sejam desonestas. Estou dizendo que ninguém deveria receber autoridade absoluta sobre aquilo que consideramos verdadeiro.
Também não estou afirmando que todas as opiniões possuem o mesmo valor, que os fatos são relativos ou que qualquer interpretação merece a mesma credibilidade. Há evidências mais fortes e mais fracas, métodos mais rigorosos e menos rigorosos, afirmações demonstráveis e alegações que não resistem à investigação.
A realidade não tem obrigação de corresponder às nossas convicções.
Nós não enxergamos o mundo inteiro #
Tudo aquilo que conhecemos sobre o mundo é necessariamente limitado. Nossa experiência pessoal representa uma fração minúscula da realidade. Não presenciamos a maioria dos acontecimentos históricos, não acompanhamos todas as decisões políticas, não conhecemos todas as sociedades e não temos acesso a todas as informações disponíveis.
Dependemos de intermediários: jornalistas, pesquisadores, historiadores, instituições, testemunhas, plataformas digitais e, cada vez mais, sistemas de inteligência artificial.
Mesmo quando duas pessoas observam o mesmo acontecimento, podem perceber aspectos diferentes, interpretar suas causas de maneiras distintas e chegar a conclusões divergentes.
Há ainda nossos próprios filtros. Experiências pessoais, valores, emoções, educação, ambiente social e expectativas influenciam o que percebemos, recordamos e consideramos importante.
O viés de confirmação, por exemplo, pode nos levar a procurar, interpretar e valorizar informações que reforçam crenças preexistentes, enquanto damos menos atenção às evidências contrárias.
Existe também o raciocínio motivado, no qual desejos, interesses e compromissos pessoais podem influenciar a forma como avaliamos argumentos. Em determinadas circunstâncias, procuramos justificativas para preservar uma conclusão na qual já acreditamos, em vez de examinar imparcialmente se ela está correta.
Isso não acontece apenas na política nem exige a existência de grupos organizados. Em qualquer conversa entre duas pessoas, num conflito familiar, numa amizade, numa relação afetiva ou no trabalho, podemos deixar de escutar porque já decidimos de que lado cada um está. A lealdade, a confiança, ressentimentos e expectativas sobre quem “costuma ter razão” podem transformar a conversa numa disputa de torcida: descartamos o argumento antes de examiná-lo porque não gostamos de quem o apresenta, de suas fontes ou do que sua posição representa para nós. Assim, algo verdadeiro pode ser rejeitado por sua origem, enquanto uma afirmação fraca recebe crédito por vir de alguém em quem confiamos. A origem e a confiabilidade de uma fonte são relevantes, mas a identidade de quem fala não responde, por si só, se o argumento procede. O teste precisa voltar às evidências, ao contexto e à possibilidade de verificar a afirmação, mesmo quando ela vem de alguém com quem estamos em conflito ou contraria aquilo em que acreditamos.
Não avaliamos ideias de fora do corpo, como observadores sem história ou sentimento. Somos organismos com cérebro, sistemas hormonais, memórias e necessidades; medo, raiva, esperança e afeto influenciam o que chama nossa atenção e o peso que damos aos riscos e benefícios. Emoção não é o oposto automático da razão, mas pode orientar o julgamento antes que percebamos. Quando uma conclusão combina com aquilo que desejamos ou tememos, podemos cobrar provas mais rigorosas de quem a contradiz e aceitar com menos resistência o que a confirma. Pesquisas sobre a interação entre emoção e decisão descrevem justamente essa relação moduladora, em vez de uma divisão simples entre “razão” e “sentimento” (revisão em neurociência afetiva; estudo sobre a heurística afetiva).
Também podemos superestimar um acontecimento raro porque lembramos vividamente de uma vez em que ele ocorreu. Se uma coincidência, um pressentimento ou uma previsão parece ter se confirmado, a história fica disponível na memória; as muitas vezes em que nada aconteceu costumam ser menos memoráveis. Isso pode fazer uma possibilidade improvável parecer comum ou inevitável. O fato de algo ter acontecido merece ser considerado, mas não basta para estimar a chance de se repetir nem para provar uma causa. Precisamos perguntar quantas vezes a situação ocorreu, em que condições e qual é a frequência de base. A chamada heurística da disponibilidade descreve esse atalho, no qual a facilidade de lembrar exemplos influencia a estimativa de frequência ou probabilidade (Tversky e Kahneman, 1973). É uma das cautelas que levo de O andar do bêbado: encontrar um padrão depois do acontecimento não significa que o acaso tenha desaparecido ou que tenhamos identificado a explicação correta.
E há outro problema: frequentemente não percebemos aquilo que desconhecemos. Podemos ter plena convicção sobre determinado assunto sem sequer saber quais informações fundamentais estão faltando.
Por isso, não considero suficiente alguém dizer que viu com os próprios olhos, que pesquisou na internet ou que determinada explicação faz sentido.
Uma observação pode ser incompleta. Uma pesquisa pode selecionar apenas fontes convenientes. E uma explicação aparentemente lógica pode partir de premissas falsas.
Ter certeza não é a mesma coisa que ter razão.
Nosso cérebro procura atalhos #
O cérebro humano não consegue avaliar conscientemente todas as informações que recebe. Para lidar com a complexidade do mundo, utilizamos heurísticas, associações, experiências anteriores e atalhos mentais.
Esses mecanismos são fundamentais para a vida cotidiana, mas também podem produzir erros sistemáticos de julgamento.
Nem todas as nossas opiniões surgem de uma investigação independente. Muitas são influenciadas por conversas, vídeos, notícias, livros, professores, familiares, comunidades e pessoas que admiramos.
Às vezes, assistimos a um vídeo que apresenta uma explicação aparentemente lógica sobre determinado acontecimento. O discurso tem começo, meio e fim, utiliza palavras convincentes, oferece exemplos e parece responder às nossas dúvidas. Então passamos a reproduzir aquela interpretação como se tivéssemos chegado à conclusão por conta própria.
Mas será que verificamos as premissas? Procuramos dados que poderiam contradizer a explicação? Consideramos interpretações alternativas?
Um argumento pode ser logicamente coerente e, ainda assim, partir de informações falsas. A conclusão pode decorrer corretamente das premissas, mas isso não garante que as premissas correspondam à realidade.
Existe também a chamada prova social, estudada na psicologia da influência. Quando não sabemos como agir ou o que pensar, podemos utilizar o comportamento de outras pessoas como referência.
Em determinados contextos, se muitas pessoas parecem concordar com determinada afirmação, podemos interpretá-la como mais confiável.
Os experimentos de conformidade social de Solomon Asch demonstraram que a pressão de um grupo pode influenciar julgamentos individuais.
Uma reprodução experimental publicada em 2023 na revista PLOS ONE encontrou efeitos semelhantes e também investigou a conformidade em opiniões políticas. No experimento, os pesquisadores observaram conformidade em 38% das respostas às questões políticas utilizadas, resultado que deve ser interpretado dentro das condições específicas do estudo.
Isso não significa que sempre concordaremos com a maioria ou que sejamos incapazes de pensar por nós mesmos. Significa reconhecer que a percepção do consenso pode influenciar nossas decisões.
Agora imagine esse mecanismo em redes sociais.
Em Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, Jaron Lanier critica plataformas cujo modelo de negócio depende de capturar atenção e influenciar comportamento. O livro apresenta uma crítica deliberadamente contundente, não uma prova de que toda rede social afeta todas as pessoas do mesmo modo. Ainda assim, ajuda a perguntar quem se beneficia quando continuamos rolando a tela e que escolhas de design tornam esse hábito mais provável.
Uma comparação útil vem dos estudos de condicionamento operante de B. F. Skinner. Em esquemas de reforço intermitente, uma resposta pode ser recompensada apenas algumas vezes, e essa imprevisibilidade pode manter o comportamento. Curtidas, mensagens e novidades que aparecem sem um ritmo previsível lembram esse mecanismo, mas uma rede social não é uma caixa de Skinner, e a analogia não demonstra que seu uso cause dependência.
A dopamina também costuma ser resumida de forma enganosa como a molécula do prazer. Ela participa de processos de aprendizagem e de sinalização de diferenças entre recompensas esperadas e recebidas, entre outras funções, como discute esta revisão sobre dopamina e erro de previsão de recompensa. Por isso, falar em “vício em dopamina” como se cada notificação liberasse uma dose e automaticamente causasse dependência simplifica demais o que a pesquisa mostra. O que podemos discutir com mais cuidado é como recompensas sociais imprevisíveis podem incentivar checagens repetidas e como isso varia entre pessoas e contextos.
A alegoria da caverna, apresentada por Platão no livro VII de A República, oferece outra imagem para pensar nisso. Os prisioneiros veem sombras projetadas na parede e as tomam pelo mundo inteiro, porque não conhecem o que existe fora daquele campo de visão. Um feed algorítmico não é literalmente uma caverna, e o que aparece nele não é necessariamente falso. Mas a seleção e a ordem das publicações delimitam o recorte que recebemos. Se confundimos esse recorte com a realidade inteira, deixamos de perguntar o que ficou de fora, por que certos conteúdos aparecem e quais interesses influenciam essa organização. A alegoria original trata de educação e conhecimento; a aproximação com redes sociais é uma interpretação contemporânea, não uma equivalência proposta por Platão.
O clipe de “Carmen”, de Stromae, transforma essa crítica em imagem: um pássaro azul, associado ao Twitter, cresce junto com a busca por atenção e seguidores e passa a ocupar o espaço das relações do personagem. A música e o vídeo não explicam literalmente como funciona um algoritmo, mas ajudam a enxergar como a lógica de visibilidade e aprovação pode disputar nossa atenção e moldar o que parece importante. O projeto oficial do clipe apresenta a obra como uma releitura do amor na era digital.
Você encontra uma publicação com milhares de curtidas, centenas de comentários favoráveis e inúmeras pessoas aparentemente defendendo a mesma interpretação.
Pode parecer que existe um consenso espontâneo, mesmo quando parte daquele engajamento foi produzida artificialmente.
É nesse ponto que a psicologia encontra a manipulação organizada da informação.
A realidade que nos ensinam a enxergar #
Na comunicação social, existe um campo de estudos conhecido como teoria do cultivo, desenvolvido a partir das pesquisas de George Gerbner.
A ideia central é que a exposição prolongada a determinados padrões de representação na mídia pode influenciar a maneira como percebemos a realidade social.
Uma pessoa constantemente exposta a conteúdos que retratam o mundo como extremamente perigoso, por exemplo, pode desenvolver uma percepção de insegurança desproporcional aos riscos reais de seu ambiente.
Isso não significa que os meios de comunicação controlem automaticamente aquilo em que acreditamos. Os efeitos dependem de diversos fatores, mas a exposição acumulada pode influenciar nossa visão de mundo.
Existe também o chamado efeito da verdade ilusória. Pesquisas demonstram que a repetição de uma afirmação pode aumentar sua aparência de veracidade, mesmo quando ela é falsa.
Uma metanálise publicada em fevereiro de 2026 na Nature Communications, reunindo 182 estudos e mais de 31 mil participantes, encontrou evidências desse fenômeno, embora tenha identificado variações importantes na intensidade dos efeitos.
Agora pense na quantidade de vezes que encontramos as mesmas narrativas nas redes sociais, nos noticiários, nos vídeos, nos grupos de mensagens e nas conversas cotidianas.
Uma afirmação repetida por diferentes influenciadores, publicada em diversas páginas e reproduzida por pessoas próximas pode se tornar familiar. E a familiaridade, em certas condições, pode ser confundida com credibilidade.
Aquilo que parece ser uma opinião espontânea e amplamente compartilhada pode, em determinadas circunstâncias, resultar da repetição contínua de mensagens, da seleção algorítmica de conteúdos ou de campanhas coordenadas.
A familiaridade de uma afirmação não comprova sua veracidade. E a popularidade de uma opinião não a transforma em fato.
A fabricação artificial do consenso #
Existe uma prática conhecida como astroturfing, que consiste em criar a aparência de um movimento espontâneo de apoio popular quando, na realidade, existe uma organização coordenando ou financiando sua promoção de maneira não transparente.
Isso pode envolver perfis falsos, comentários repetidos, contas automatizadas, campanhas de engajamento e outras estratégias destinadas a produzir a impressão de que determinada posição é amplamente compartilhada.
Imagine encontrar centenas de pessoas defendendo a mesma ideia em comunidades diferentes. Você pode interpretar aquela repetição como evidência de que muitas pessoas chegaram independentemente à mesma conclusão.
Mas e se parte dessas contas pertencer à mesma operação?
O problema não é apenas a possibilidade de transmitir informações falsas. É também a fabricação da aparência de consenso, autoridade e legitimidade.
E isso não é simplesmente uma hipótese.
Em 2019, uma investigação bipartidária do Senado dos Estados Unidos documentou como a Internet Research Agency, organização sediada em São Petersburgo e apoiada pelo Kremlin, utilizou redes sociais para interferir no ambiente político americano durante as eleições presidenciais de 2016.
A organização produziu conteúdos, criou identidades fictícias, explorou conflitos raciais e ideológicos e procurou aprofundar divisões sociais. Segundo a investigação, a operação favoreceu a candidatura de Donald Trump e procurou prejudicar Hillary Clinton naquele contexto eleitoral específico.
Isso descreve a intenção e as ações atribuídas à operação, não prova que ela tenha determinado o resultado da eleição. Também não demonstra coordenação entre o governo russo e a campanha de Trump. Interferência estrangeira, estratégia eleitoral doméstica e resultado eleitoral são questões relacionadas, mas não são a mesma afirmação.
Pesquisas também identificaram atividades associadas à operação russa em comunidades do Reddit, além de outras plataformas.
Em julho de 2024, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou medidas contra uma rede russa de bots no X que utilizava inteligência artificial para criar perfis fictícios e promover mensagens alinhadas aos objetivos do governo russo. A investigação envolveu 968 contas e a apreensão de dois domínios.
A China também foi associada a operações de influência digital, incluindo a rede conhecida como Spamouflage.
Em setembro de 2024, a empresa de análise de redes sociais Graphika documentou perfis vinculados à operação que se apresentavam como cidadãos americanos para participar de discussões políticas e divulgar narrativas divisivas.
Pesquisadores da Universidade Clemson também documentaram campanhas direcionadas ao então senador americano Marco Rubio, com atividades iniciadas em 2022 e retomadas em 2024.
Esses exemplos não demonstram que todas as pessoas tenham sido convencidas ou que as operações tenham alcançado seus objetivos. Demonstram que houve tentativas organizadas de influenciar percepções e discussões públicas utilizando identidades e estratégias enganosas.
Mas precisamos evitar a conclusão inversa: nem toda conta que discorda de você é um bot, nem toda opinião popular é fabricada e nem todo movimento político organizado representa uma operação clandestina.
A existência dessas estratégias não autoriza acusações sem evidências.
Infiltração, polarização e excesso de informação #
Algumas operações não tentam convencer o público inteiro com uma única mensagem. Elas procuram entrar em comunidades já existentes, entender seus conflitos e falar como se fossem parte delas. Uma identidade falsa pode se apresentar como morador, ativista, jornalista ou alguém que compartilha as preocupações do grupo. Também pode haver contas reais que passam a amplificar, sem conhecer a origem ou a coordenação da campanha. Por isso, encontrar uma mensagem suspeita não basta para concluir quem a publicou, quem a financiou ou se houve uma operação de inteligência. A atribuição exige evidências sobre vínculos, comportamento coordenado e infraestrutura, não apenas discordância ou conteúdo provocador.
O termo contra-inteligência costuma se referir a esforços para identificar e impedir atividades de serviços de inteligência adversários. No debate público sobre redes, porém, ele às vezes é usado de modo impreciso para descrever qualquer tentativa de descobrir manipulação. É melhor separar as coisas: pesquisadores, jornalistas e plataformas podem investigar redes coordenadas, mas isso não os transforma automaticamente em serviços de contra-inteligência. E suspeitas de infiltração não devem servir de atalho para deslegitimar pessoas ou movimentos sem provas.
Uma tática documentada é aproveitar divisões que já existem. A operação pode apoiar lados opostos, provocar respostas indignadas e apresentar cada conflito como insolúvel. O objetivo pode ser menos converter alguém a uma posição específica e mais reduzir a confiança entre grupos, instituições e fontes de informação. A investigação do Senado dos Estados Unidos sobre a Internet Research Agency descreveu esforços que exploravam tensões sociais, inclusive em torno de raça e imigração. Isso não significa que toda polarização tenha sido fabricada por atores externos: desigualdades, disputas políticas e experiências reais também produzem conflito. Uma campanha pode explorar essas tensões sem tê-las criado.
Antes de entrar numa disputa ou aderir a uma convocação contra um suposto inimigo, também vale perguntar quem definiu o conflito nesses termos e quem pode ganhar com a nossa reação. Alguém pode obter votos, dinheiro, audiência, influência ou poder quando nos revoltamos contra uma pessoa ou nos alinhamos a outra. Isso não prova que esse alguém tenha inventado o problema ou esteja coordenando a disputa; pessoas e organizações podem se beneficiar de conflitos que não criaram. A pergunta serve para examinar interesses, incentivos e consequências sem abandonar a apuração dos fatos nem presumir uma conspiração.
Outra possibilidade é a sobrecarga. Uma enxurrada de afirmações, acusações, versões incompatíveis e supostas revelações pode ocupar mais atenção do que qualquer pessoa consegue verificar. O efeito não precisa ser fazer o público acreditar em uma história específica. Pode ser deixar tudo tão confuso que pareça impossível saber o que aconteceu, ou tão cansativo que as pessoas desistam de conferir. O modelo de propaganda chamado firehose of falsehood, descrito pela RAND, destaca justamente o uso de alto volume e múltiplos canais, inclusive para sobrecarregar mensagens concorrentes. Uma pesquisa publicada na Nature analisou táticas de operações de influência como infiltrar comunidades e inundar redes com conteúdo; identificar essas técnicas, porém, não prova que toda conversa intensa ou viral seja coordenada.
Esse mecanismo também explica por que responder a cada publicação isoladamente pode ser ineficaz. A correção de uma alegação não desfaz, por si só, a rede de contas, a repetição em outros canais ou a desconfiança produzida pelo conjunto. Ainda assim, não devemos presumir uma operação sempre que vemos muito conteúdo ou mensagens contraditórias. Precisamos perguntar o que se sabe sobre a origem, quais evidências sustentam a atribuição, que explicações alternativas existem e o que permanece incerto.
Quando o volume cresce, desacelerar é uma forma de recuperar o julgamento: guardar a afirmação exata, procurar a fonte original, distinguir fato confirmado de inferência e verificar se fontes independentes realmente confirmam o mesmo dado. Às vezes a resposta mais responsável é admitir que ainda não sabemos. A urgência de tomar partido não transforma informação incompleta em evidência.
Essas cautelas são compatíveis com o que sabemos sobre campanhas documentadas: o relatório bipartidário do Senado dos Estados Unidos descreve a exploração de divisões sociais; a análise da RAND sobre o modelo de alto volume discute como mensagens numerosas e distribuídas por vários canais podem sobrecarregar a resposta; e um estudo sobre vulnerabilidades de comunidades online examina táticas de infiltração, conteúdo enganoso, inundação de redes e direcionamento de usuários. São fontes sobre fenômenos e casos delimitados, não instrumentos para diagnosticar a intenção de qualquer pessoa em uma discussão.
Quando os dados pessoais se tornam instrumentos de influência #
Outro caso importante é o da Cambridge Analytica.
A empresa ficou conhecida por suas atividades de análise de dados e direcionamento de mensagens políticas. Em 2019, a Federal Trade Commission dos Estados Unidos concluiu que a empresa utilizou práticas enganosas para obter informações pessoais de dezenas de milhões de usuários do Facebook, com finalidades de perfilamento e direcionamento eleitoral.
Cambridge Analytica também trabalhou para a campanha presidencial de Donald Trump em 2016. Os registros da Comissão Federal Eleitoral dos Estados Unidos registram pagamentos da campanha à empresa. O caso, portanto, não se resume a uma empresa que coletou dados: havia um cliente eleitoral e uma tentativa de usar dados e segmentação para orientar comunicação política. Isso não permite afirmar que a técnica tenha sido decisiva para a vitória de Trump; a dimensão de seu efeito eleitoral não foi demonstrada de forma conclusiva.
É importante não fundir esse episódio com a operação russa descrita acima. A Cambridge Analytica prestou serviços à campanha e esteve envolvida no uso irregular de dados do Facebook; a Internet Research Agency conduziu uma operação de influência atribuída à Rússia. Os casos ocorreram no mesmo ciclo eleitoral e usaram redes sociais, mas as evidências citadas não demonstram que fossem uma operação conjunta.
Steve Bannon, posteriormente estrategista político de Donald Trump, havia ocupado o cargo de vice-presidente da Cambridge Analytica, conforme registrado em uma investigação parlamentar britânica.
É importante distinguir a associação documentada de uma pessoa com determinada empresa da responsabilidade por todas as ações praticadas por ela. A participação institucional não demonstra automaticamente envolvimento individual em cada irregularidade.
Ainda assim, o caso permite compreender como informações pessoais podem ser utilizadas para conhecer preferências, segmentar públicos e desenvolver mensagens direcionadas a grupos específicos.
Campanhas podem escolher argumentos diferentes conforme os interesses, receios e características de cada público. Isso não torna toda comunicação segmentada ilegítima, mas cria preocupações quando envolve coleta enganosa de dados, falta de transparência ou tentativas de explorar vulnerabilidades psicológicas.
O risco não está apenas em receber uma mentira explícita. Está também em receber uma seleção de informações construída para influenciar uma decisão sem que tenhamos consciência de como aquela mensagem foi escolhida para nós.
O que os dados permitem prever #
Às vezes alguém comenta uma conversa perto da televisão e, pouco depois, vê um anúncio relacionado. A impressão de que a TV estava escutando parece óbvia, mas a coincidência não prova isso. Alguns aparelhos têm microfones para comandos de voz; conforme o modelo e a configuração, a detecção da palavra de ativação pode ocorrer localmente, enquanto o áudio enviado para reconhecimento depende de o recurso ser acionado. Isso é diferente de gravar e transmitir continuamente as conversas da casa. Há, porém, uma coleta menos intuitiva que já foi documentada: em 2017, a Federal Trade Commission dos Estados Unidos acusou a Vizio de coletar sem consentimento o histórico do que era exibido em 11 milhões de televisores. Essa tecnologia reconhecia o conteúdo assistido; não era prova de que a empresa estivesse gravando conversas ambientes.
Também se repete a ideia de que um anúncio precisa aparecer sete vezes para alguém querer comprar. A chamada “regra dos sete” é uma heurística de publicidade, não uma lei psicológica nem um número garantido. Repetição pode ajudar a reconhecer e recordar uma marca, mas o efeito depende do anúncio, da pessoa, do intervalo entre exposições e do contexto. Uma metanálise sobre repetição publicitária encontrou resultados diferentes para atitude e memória, sem estabelecer sete exposições como limiar universal; insistir demais também pode cansar ou irritar.
Nas redes sociais, a repetição pode ser menos evidente porque não aparece necessariamente como o mesmo anúncio. Se alguém assiste a certos vídeos, para em determinadas publicações, pesquisa um assunto ou interage com um grupo, sistemas de recomendação podem usar esses sinais para selecionar conteúdos parecidos. Ao longo de semanas ou meses, uma pauta pode reaparecer em formatos e contas diferentes até parecer familiar, óbvia ou até uma descoberta espontânea. Isso não prova que a plataforma tenha planejado implantar uma crença específica naquela pessoa: recomendações refletem objetivos do serviço, sinais de uso e modelos que também erram. Ainda assim, a repetição personalizada pode influenciar o que ganha atenção e o que começa a parecer normal.
Com históricos extensos, plataformas conseguem estimar preferências e probabilidades de ações futuras, como clicar, assistir, comprar ou interagir. Sistemas de recomendação são construídos justamente para usar comportamentos anteriores ao escolher o que mostrar em seguida, como descreve esta pesquisa sobre previsão em sistemas de recomendação. “Prever” aqui significa calcular tendências ou chances, não saber com certeza o que alguém fará. Mudanças de contexto, escolhas inéditas, dados incompletos e a própria imprevisibilidade humana limitam essas estimativas. O risco está menos numa leitura perfeita da mente e mais em usar previsões imperfeitas, mas úteis em grande escala, para decidir quais mensagens cada pessoa verá.
Em 2026, uma acusação semelhante sobre distribuição algorítmica chegou ao Tribunal Superior Eleitoral no Brasil. A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva alegou que o Instagram estaria ampliando de forma privilegiada o alcance do perfil de Nikolas Ferreira. O TSE pediu à Meta dados sobre a distribuição das publicações e determinou relatórios periódicos de alcance para algumas contas durante a campanha. Isso é uma apuração e uma medida de acompanhamento, não uma decisão que tenha comprovado favorecimento intencional da Meta. A empresa contestou que diferenças de alcance, por si sós, demonstrem favorecimento. O próprio TSE descreveu a ordem de monitoramento, e a Folha relatou o pedido de dados sobre a amplificação do perfil.
Também circulou a notícia de que Joel Kaplan, diretor de assuntos globais da Meta, sairia da empresa. A informação publicada em outubro é que ele deixará o cargo em 2027, após a transição, não que tenha sido demitido. Não encontrei evidência de que essa saída esteja ligada à apuração sobre Nikolas Ferreira. A reportagem da Axios detalha a saída anunciada.
Quando a manipulação tenta alcançar as inteligências artificiais #
O problema torna-se ainda mais complexo quando consideramos os sistemas de inteligência artificial.
Em setembro de 2025, documentos registrados no Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelaram um contrato envolvendo a empresa americana Clock Tower X, a agência Havas Media e uma campanha financiada pelo Estado de Israel.
O contrato descrevia uma campanha de comunicação nos Estados Unidos cujo objetivo declarado era combater o antissemitismo.
Entre as atividades previstas estavam produção e distribuição de conteúdo digital, otimização de resultados de busca, criação de páginas na internet e tentativas de influenciar o enquadramento das respostas produzidas por sistemas GPT.
O documento original, registrado sob a legislação americana FARA, menciona expressamente, na página 23 do arquivo, a implantação de sites e conteúdos para produzir resultados de enquadramento em conversas com sistemas GPT.
Isso não demonstra automaticamente que os modelos tenham sido treinados com esse material ou que seus parâmetros internos tenham sido modificados. O registro documenta uma estratégia e seus objetivos, não comprova, por si só, a eficácia integral da operação.
Também é necessário distinguir uma campanha de comunicação política, mesmo quando procura influenciar o enquadramento de um assunto, de uma campanha que comprovadamente distribui informações falsas. As duas coisas não são necessariamente equivalentes.
Ainda assim, a preocupação com a procedência das informações é legítima.
Se um sistema consulta fontes disponíveis na internet, e parte dessas fontes foi produzida estrategicamente para favorecer determinada interpretação, ele pode acabar reproduzindo ou citando informações enviesadas, especialmente se não avaliar adequadamente sua qualidade e procedência.
Isso não significa que todas as inteligências artificiais sejam deliberadamente manipuladas ou que suas respostas sejam sempre falsas.
Significa que uma resposta apresentada com clareza, segurança e referências não deve ser confundida automaticamente com uma resposta verdadeira.
A inteligência artificial pode cometer erros, produzir informações inexistentes, reproduzir vieses presentes em seus dados ou apresentar conclusões com confiança maior do que as evidências permitem.
O mesmo cuidado que precisamos ter com jornalistas, influenciadores e políticos deve ser aplicado às respostas de sistemas de IA, inclusive quando elas confirmam nossas próprias convicções.
A pós-verdade e o abandono dos fatos #
A expressão pós-verdade descreve circunstâncias em que fatos objetivos exercem menos influência sobre a opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais.
Isso não significa que a verdade deixou de existir. Significa que, em determinados ambientes, a aceitação de uma narrativa pode depender mais de sua capacidade de mobilizar emoções e confirmar identidades do que da solidez de suas evidências.
É possível que uma pessoa continue defendendo uma afirmação mesmo depois de receber informações que a contradizem, especialmente quando abandonar aquela crença ameaça seu pertencimento a um grupo ou sua visão de mundo.
Muitas vezes, uma discussão deixa de ser uma tentativa de compreender os fatos e passa a funcionar como uma disputa de lealdades.
Questionar determinada narrativa é interpretado como atacar um grupo. Reconhecer um erro é visto como fraqueza. E apresentar informações inconvenientes pode ser tratado como traição.
Também precisamos reconhecer que emoções não são necessariamente inimigas da razão. A indignação diante de uma injustiça pode ser legítima e fundamentada. O problema surge quando a emoção substitui a investigação dos fatos ou é utilizada para impedir o questionamento.
A pós-verdade não é simplesmente a existência de mentiras. Mentiras sempre existiram.
O problema está em ambientes nos quais a fidelidade a uma narrativa passa a ser considerada mais importante do que sua correspondência com a realidade.
A manipulação nem sempre parece manipulação #
Existem mecanismos de manipulação psicológica e falácias argumentativas que precisamos conhecer para compreender melhor os debates públicos e nossas relações pessoais.
O DARVO é uma sigla para Deny, Attack, Reverse Victim and Offender: negar, atacar e inverter os papéis de vítima e responsável. O termo, associado ao trabalho da pesquisadora Jennifer Freyd, descreve uma resposta possível quando alguém é confrontado por uma conduta: nega ou minimiza o que ocorreu, ataca a credibilidade de quem trouxe o assunto e se apresenta como a pessoa prejudicada, retratando a outra como agressora. Pesquisas experimentais sobre o DARVO indicam que essa inversão pode afetar a maneira como observadores avaliam as pessoas envolvidas. Isso não prova que toda pessoa que nega uma acusação esteja usando DARVO, nem estabelece se a acusação original é verdadeira.
O gaslighting é diferente de uma simples divergência sobre o que aconteceu. O termo é mais útil para descrever um padrão de distorções, negações ou contradições que, com o tempo, faz alguém duvidar da própria memória, percepção ou capacidade de julgar. Uma conversa isolada em que duas pessoas lembram de um episódio de maneiras diferentes não basta para caracterizá-lo. O que importa é observar a repetição, o contexto, a assimetria de poder e o efeito de desestabilização. A literatura ainda discute os limites precisos do conceito, como mostra esta revisão sobre gaslighting no ambiente de trabalho.
A projeção psicológica é a atribuição a outra pessoa de características, sentimentos ou comportamentos que também estão presentes em quem acusa. Alguém que mente pode chamar os outros de mentirosos; alguém que tenta controlar uma conversa pode acusar a outra pessoa de manipulação. Mas a semelhança entre a acusação e o comportamento de quem a faz não demonstra, sozinha, que houve projeção. O processo pode ser inconsciente, e a acusação também pode ser verdadeira. É preciso verificar a conduta de cada pessoa, em vez de tratar a hipótese psicológica como prova. A definição da Associação Americana de Psicologia descreve o conceito sem exigir que a pessoa tenha consciência do mecanismo.
A inversão de culpa, ou blame shifting, desloca a responsabilidade pela própria conduta para quem sofreu seus efeitos. “Eu gritei porque você me provocou” é um exemplo: mesmo que tenha havido uma discussão, isso não torna a outra pessoa responsável pela decisão de gritar. Contexto pode ajudar a explicar uma reação, mas não transfere automaticamente a autoria nem elimina a responsabilidade por ela. Esse deslocamento pode aparecer junto ao DARVO, mas não é a mesma coisa: um nome descreve a transferência de culpa; o outro, uma sequência de negação, ataque e inversão de papéis.
O ad hominem ocorre quando alguém tenta desacreditar um argumento atacando características irrelevantes de quem o apresenta, em vez de enfrentar seu conteúdo. Questionar a idade, a aparência, a origem ou a suposta ignorância de uma pessoa não demonstra que seu argumento esteja errado.
Há também o tu quoque, frequentemente associado à resposta “mas você também fez”. É uma forma de desviar uma crítica apontando a incoerência de quem critica. Essa incoerência pode ser relevante para avaliar a credibilidade ou a consistência daquela pessoa, mas não responde, por si só, à questão original. Se alguém acusa outra pessoa de mentir e recebe como resposta “você também já mentiu”, ainda falta verificar se a acusação específica é verdadeira. A Stanford Encyclopedia of Philosophy trata o tu quoque como uma forma de ad hominem que pode ser falaciosa quando substitui a análise do argumento.
Esses conceitos podem se sobrepor, mas apontam para aspectos diferentes. Se alguém nega uma conduta, ataca quem a relata, diz que é a verdadeira vítima e acusa essa pessoa de fazer o mesmo, a sequência pode se parecer com DARVO, enquanto a acusação recíproca pode levantar uma hipótese de projeção e a justificativa pode transferir a culpa. Se, além disso, existe um padrão repetido de fazer a outra pessoa duvidar da própria memória ou percepção, pode haver elementos compatíveis com gaslighting. Nenhum desses rótulos substitui a apuração do que aconteceu.
Também precisamos conhecer a falsa equivalência, quando situações que possuem diferenças relevantes são apresentadas como se fossem idênticas, e o espantalho, quando alguém distorce o argumento de outra pessoa para tornar mais fácil atacá-lo.
Outro mecanismo recorrente é a seleção tendenciosa de evidências, frequentemente chamada de cherry-picking. Consiste em apresentar apenas informações favoráveis a uma conclusão, ignorando elementos que poderiam enfraquecê-la ou modificá-la.
Esses mecanismos podem aparecer separadamente ou combinados. Entretanto, é importante não transformar esses conceitos em rótulos para qualquer pessoa de quem discordamos.
Reconhecer um padrão argumentativo não comprova, por si só, a intenção de manipular alguém, muito menos a culpa por uma acusação.
É preciso analisar o comportamento concreto e suas evidências, não simplesmente escolher um termo psicológico para desqualificar um adversário.
E lembre-se: o conhecimento dessas técnicas não nos torna imunes a elas. Alguém pode conhecer perfeitamente o significado de gaslighting e ainda assim utilizá-lo. Pode denunciar manipulações enquanto manipula. Pode acusar os outros de espalharem desinformação enquanto divulga informações falsas.
Até o discurso contra a manipulação pode ser usado para manipular.
Como uma discussão pode ser desviada #
Nem toda tentativa de descredibilizar uma fala ataca diretamente seu conteúdo. Às vezes o objetivo, ou o efeito, é fazer com que o público rejeite a pessoa antes de ouvir o argumento. O poisoning the well, ou envenenamento do poço, tenta isso antecipadamente: “não escutem, é militante” substitui a análise do que foi dito por um rótulo. O apelo ao ridículo faz algo parecido ao transformar uma posição em motivo de deboche, sem mostrar por que seria falsa. Já o policiamento do tom desloca o debate para a forma da crítica. O tom pode ser relevante para decidir como conversar, mas não responde se a denúncia procede. E rejeitar uma informação apenas porque veio de uma fonte associada a determinado grupo é uma falácia genética: a origem pode ser importante para avaliar possíveis vieses, mas não decide sozinha se o conteúdo é verdadeiro.
Outras manobras mudam o objeto da conversa. A pista falsa, ou red herring, introduz um tema que não responde à pergunta; o whataboutism é uma versão comum, que contrapõe a falha de outro grupo. O espantalho atribui ao interlocutor uma versão exagerada ou distorcida do que ele defendeu. A falsa equivalência apaga diferenças relevantes entre casos, enquanto o falso dilema finge que só existem duas alternativas. No moving the goalposts, os critérios para aceitar uma evidência mudam depois que ela é apresentada. No motte-and-bailey, alguém alterna entre uma tese provocadora e outra mais moderada, recuando para a versão defensável quando recebe contestação, mas depois voltando a sugerir a tese original.
Também é possível sobrecarregar a resposta. O chamado Gish gallop despeja muitas alegações em sequência, de modo que seja impraticável conferir todas no tempo disponível. A inversão do ônus da prova exige que o outro refute uma acusação que quem a fez ainda não sustentou. Raciocínio circular usa a própria conclusão como justificativa; apelo à popularidade trata adesão como prova; e o “nenhum verdadeiro membro do grupo faria isso” redefine o grupo para descartar qualquer contraexemplo. Sealioning é um termo informal para pedidos de explicação e fontes repetidos, em tom aparentemente polido, mas usados para desgastar ou assediar alguém. Não é sinônimo de fazer uma pergunta difícil: pedir evidências de boa-fé faz parte de uma discussão responsável. O que importa é se as respostas são consideradas e se os pedidos permanecem relevantes e proporcionais. Um estudo filosófico sobre pedidos insistentes de justificativa como forma de assédio discute essa fronteira.
Essas categorias não são um detector automático de má-fé. Perguntar pela fonte não é sealioning por si só; apontar uma incoerência pode ser pertinente; e mudar de posição diante de uma boa evidência é sinal de revisão, não de “mover as traves”. Para avaliar uma conversa, vale voltar à afirmação em disputa: qual evidência foi apresentada, que resposta a enfrenta, e o critério usado para aceitá-la permaneceu o mesmo?
Quando a estratégia mira um grupo inteiro #
Algumas táticas deixam de ser apenas modos de argumentar e passam a organizar uma narrativa política. Uma falsa bandeira é, em sentido estrito, uma ação cuja autoria real é escondida ou disfarçada para atribuí-la a um adversário. Uma acusação falsa, sozinha, não prova que houve uma operação desse tipo. Um agente provocador pode infiltrar-se num grupo para estimular ações que o comprometam; uma armação pode envolver fabricar circunstâncias ou plantar provas; e um incidente encenado simula um acontecimento. Um pretexto é a justificativa apresentada para uma ação, que pode ser enganosa sem que o evento usado como justificativa tenha sido encenado. São conceitos próximos, mas não intercambiáveis. A expressão deve ser aplicada a casos reais apenas quando evidências sustentam a atribuição; a própria alegação infundada de que um evento foi encenado pode servir para desacreditar testemunhas ou semear desconfiança. Esta análise histórica e de verificação sobre falsas bandeiras explica por que o termo não deve virar rótulo genérico para qualquer mentira política.
A narrativa de “nós contra eles” também exige precisão. Grupos podem ter conflitos reais de interesse e defender projetos incompatíveis; nomear essa disputa não é, por si só, manipulação. A estratégia se torna perigosa quando a identidade passa a valer mais que as evidências e o adversário é apresentado como uma ameaça homogênea, imoral ou alheia à comunidade. A alterização (othering) constrói esse “outro” como estranho ou inferior; o bode expiatório atribui a ele problemas complexos sem sustentação suficiente; a demonização retrata seus integrantes como essencialmente malignos; e o alarmismo amplia uma ameaça para provocar medo. Estereótipos sobre o grupo adversário e favoritismo pelo próprio grupo podem reforçar a divisão. A teoria da identidade social ajuda a explicar como pertencimento e influência entre grupos afetam julgamentos, sem implicar que todo senso de comunidade produza hostilidade.
Também existem mensagens codificadas, às vezes chamadas de dog whistles, que comunicam sentidos diferentes a públicos distintos; controvérsias podem ser fabricadas ou artificialmente ampliadas para capturar atenção; e campanhas coordenadas podem criar uma aparência falsa de apoio espontâneo, o astroturfing. A repetição em alto volume, inclusive de versões contraditórias, pode confundir e cansar em vez de convencer de uma afirmação específica. Esses métodos podem se combinar: produzir um inimigo, atribuir-lhe a culpa por um problema, apresentar o próprio grupo como vítima e exigir lealdade contra uma ameaça. Mas reconhecer esse repertório não autoriza presumir que um movimento, um conflito ou uma acusação concreta seja encenado. A conclusão depende de evidências sobre ações, autoria, coordenação e contexto.
Até os números podem enganar #
Uma das formas mais convincentes de apresentar um argumento é acompanhá-lo de estatísticas. Números transmitem uma aparência de precisão, objetividade e autoridade.
Entretanto, estatísticas precisam de contexto.
Imagine uma cidade que registrou 100 ocorrências de determinado crime em um ano e 120 no ano seguinte. É correto afirmar que houve um aumento de 20% no número absoluto de ocorrências.
Agora imagine que, no mesmo período, a população tenha passado de 10 mil para 15 mil habitantes. A taxa de ocorrências por habitante teria diminuído 20%.
Os dois cálculos estão corretos. Mas destacar apenas um deles pode produzir impressões muito diferentes sobre a evolução da segurança pública.
Podemos selecionar períodos convenientes, omitir variáveis importantes, utilizar escalas gráficas enganosas, confundir correlação com causalidade ou comparar populações que não são equivalentes.
Uma notícia pode destacar que determinado indicador dobrou, mas omitir que passou de um caso para dois. Outra pode anunciar uma redução percentual expressiva sem explicar que o resultado depende de um período de comparação excepcionalmente desfavorável.
Gráficos também podem induzir interpretações equivocadas quando utilizam escalas inadequadas, recortam eixos sem deixar isso claro ou apresentam variações pequenas como transformações extraordinárias.
Existe inclusive um fenômeno estatístico conhecido como paradoxo de Simpson, no qual uma associação observada em dados agregados pode desaparecer ou se inverter quando analisamos os subgrupos relevantes.
E uma correlação entre dois fenômenos não demonstra automaticamente que um causou o outro. Pode haver outras variáveis envolvidas, causalidade inversa ou simplesmente uma coincidência estatística.
Isso não significa que os números possam demonstrar qualquer coisa. Significa que precisamos compreender como foram produzidos, quais perguntas realmente respondem e quais limitações possuem.
Quando encontrar uma estatística, procure saber sua fonte, metodologia, período, população, unidade de medida e contexto.
Uma estatística verdadeira, apresentada sem o contexto necessário, pode sustentar uma interpretação enganosa.
Pesquisas eleitorais também podem influenciar as escolhas que pretendem apenas medir. Imagine uma eleitora que prefere a candidata C, mas vê levantamentos nos quais A e B aparecem como as únicas concorrentes com chance de vencer. Ela pode deixar de votar em C e escolher A ou B, não por preferência, mas por acreditar que assim evita o resultado que considera pior. Esse comportamento é chamado de voto estratégico ou voto útil. A pesquisa não ordenou essa decisão; ela ofereceu uma percepção de viabilidade que pode ter entrado no cálculo da eleitora.
Isso não acontece com todo mundo, nem permite concluir que um levantamento determinou o resultado de uma eleição. Um estudo sobre as eleições brasileiras de 1989 encontrou influência parcial das pesquisas no processo de decisão, junto a várias outras fontes de informação. Em um experimento de pesquisa publicado em 2015, participantes informados sobre a margem de erro foram mais propensos a declarar intenção de voto estratégico, embora o próprio estudo também indique limites para esse efeito. Os resultados vêm de contextos específicos e não descrevem automaticamente o comportamento de todo eleitorado.
Além disso, uma pesquisa é uma estimativa produzida a partir de uma amostra, não uma contagem antecipada dos votos. A percepção de que C não tem chance pode estar errada, sobretudo quando as diferenças são pequenas, há muitos indecisos ou o levantamento tem limitações. Isso não torna o voto estratégico irracional por definição: mostra que a decisão depende tanto das preferências quanto das crenças sobre o que os outros farão, e que essas crenças podem ser influenciadas por informação incompleta. Pesquisas sobre o Brasil analisaram mais de duas mil sondagens de 2012 a 2020 e encontraram erros que variavam entre eleições e levantamentos; um estudo do CESOP/Unicamp e um experimento publicado pela Cambridge University Press ajudam a contextualizar, sem provar que pesquisas determinem o voto de cada pessoa.
Discordar não significa pensar criticamente #
Existe uma diferença entre ceticismo e negacionismo.
Pensar criticamente não significa rejeitar automaticamente tudo aquilo que dizem governos, universidades, jornalistas ou instituições científicas. Tampouco significa aceitar suas afirmações sem questionamentos.
O conhecimento científico não é infalível, mas dispõe de métodos para testar hipóteses, confrontar evidências, identificar erros e revisar conclusões.
É por isso que defendo a investigação científica apoiada em evidências. O debate entre empirismo e racionalismo pergunta quanto do conhecimento depende da experiência e quanto pode ser alcançado pela razão. O empirismo destaca a observação e a experiência; o racionalismo, o papel da razão e de certas formas de conhecimento que não se reduzem ao que percebemos pelos sentidos. Na ciência, não precisamos escolher um lado: usamos a razão para formular perguntas, construir explicações e avaliar se as conclusões decorrem das premissas, e confrontamos essas explicações com observações e testes. Sem raciocínio, os dados não se interpretam sozinhos; sem evidências, uma explicação coerente pode continuar sem ligação com o mundo.
Isso também não significa que exista uma receita única, mecânica e igual para todas as áreas. A investigação científica é um processo de raciocínio, métodos, teorias e resultados que se corrigem mutuamente, como descreve a National Academies of Sciences. Suas conclusões são provisórias, mas não arbitrárias: precisam responder às evidências disponíveis, expor seus métodos e permanecer abertas à crítica e à revisão.
Quando uma hipótese é avaliada por um classificador, não basta dizer que ele “acerta muito”. A matriz de confusão separa os resultados comparando a classe real com a prevista:
| Classe real | Previsto positivo | Previsto negativo |
|---|---|---|
| Positiva | Verdadeiro positivo (TP) | Falso negativo (FN) |
| Negativa | Falso positivo (FP) | Verdadeiro negativo (TN) |
Cada célula conta um tipo de resultado. Um falso positivo é um alerta incorreto; um falso negativo é um caso positivo que passou despercebido. A partir dessas contagens, a precision (precisão) pergunta quantos dos alertas positivos estavam corretos: TP / (TP + FP). O recall (revocação) pergunta quantos dos positivos reais foram encontrados: TP / (TP + FN).
Recall também é chamado de sensibilidade ou True Positive Rate (TPR). A especificidade mede a proporção de negativos reais corretamente identificados: TN / (TN + FP). Já a False Positive Rate (FPR) é a proporção de negativos reais classificados incorretamente como positivos: FP / (FP + TN), ou 1 - especificidade.
Essas métricas respondem a perguntas diferentes. Aumentar a sensibilidade pode reduzir falsos negativos, mas também elevar falsos positivos; mais precisão significa que os alertas emitidos são mais confiáveis, não que todos os casos positivos foram encontrados. O equilíbrio depende do custo de cada erro, do limiar escolhido e da frequência real da classe positiva. Por isso, nenhuma métrica isolada resume a qualidade de um sistema; é preciso olhar a matriz, o contexto e os dados usados na avaliação, como detalha a documentação de avaliação do scikit-learn.
Desconfiar de uma instituição não comprova que ela esteja mentindo. Da mesma forma, a reputação de uma autoridade não torna todas as suas declarações verdadeiras.
Também não devemos confundir uma opinião minoritária com uma opinião necessariamente corajosa ou correta. Uma afirmação não ganha credibilidade simplesmente por contrariar aquilo que é amplamente aceito.
O importante não é perguntar apenas quem está falando, mas também quais evidências sustentam suas afirmações, se elas podem ser verificadas e como resistem a críticas fundamentadas.
O consenso científico, quando existe, não é uma votação sobre a verdade. É uma avaliação coletiva baseada no conjunto das evidências disponíveis, sujeita a revisão diante de descobertas mais sólidas.
Por isso, rejeitar automaticamente uma conclusão porque muitas pessoas qualificadas concordam com ela não é mais racional do que aceitá-la cegamente.
Devemos estar dispostos a mudar de opinião quando surgirem evidências melhores. Caso contrário, deixamos de investigar a realidade e passamos apenas a defender aquilo em que já acreditamos.
Nem todo mundo age pelas mesmas razões #
O mundo não é composto exclusivamente de pessoas bem-intencionadas. Há indivíduos que dedicam suas vidas ao cuidado, à ciência, à educação, à justiça e à melhoria das condições de vida de outras pessoas. E há aqueles que deliberadamente enganam, exploram, perseguem, violentam ou prejudicam os demais.
Mas a natureza humana é muito mais complexa do que uma simples divisão entre pessoas boas e más.
Somos influenciados por amor, medo, raiva, ressentimento, ódio, inveja, empatia, solidariedade, ambição e desejo de pertencimento. Carregamos experiências, traumas, frustrações, inseguranças e conflitos que podem afetar nossas decisões e a maneira como interpretamos o mundo.
Algumas pessoas procuram benefícios para si mesmas sem se importar com as consequências impostas aos outros. Podem utilizar o medo, a mentira, a manipulação emocional, o prestígio, o dinheiro ou o poder para alcançar seus objetivos.
Isso não significa que buscar interesses próprios seja necessariamente errado. O problema surge quando alguém procura satisfazer seus interesses violando os direitos, a liberdade ou a dignidade de outras pessoas.
Também existem pessoas que acreditam sinceramente estar fazendo o bem enquanto causam danos profundos a outras. Algumas justificam comportamentos prejudiciais em nome de uma ideologia, de uma religião, de uma causa política ou de um suposto bem maior.
Outras podem agir movidas por interesses pessoais, financeiros ou políticos. E há quem simplesmente esteja reproduzindo uma informação falsa porque nunca teve motivos para questioná-la.
Nem sempre conhecemos as experiências, os interesses ou as intenções de quem está falando conosco. E mesmo quando acreditamos conhecê-los, podemos estar enganados.
Por isso, não basta perguntar se alguém parece honesto, inteligente, bondoso ou confiável. Precisamos examinar também aquilo que essa pessoa afirma e faz.
Uma pessoa gentil pode transmitir uma mentira. Uma pessoa agressiva pode apresentar um fato verdadeiro. Uma pessoa bem-intencionada pode produzir consequências desastrosas. E alguém que defende valores admiráveis pode agir de maneira profundamente contraditória.
Não confunda aparência com caráter, intenção com consequência ou simpatia com credibilidade.
A saúde mental também é uma responsabilidade coletiva #
Há outro aspecto que considero frequentemente negligenciado: a saúde mental e o desenvolvimento psicológico das pessoas.
Crescemos em ambientes diferentes, sujeitos a experiências que podem deixar marcas profundas. Violência doméstica, abandono, negligência, discriminação, bullying, pobreza, isolamento social e outras adversidades podem influenciar nosso desenvolvimento e nossa saúde emocional.
Algumas pessoas enfrentam dificuldades de socialização, regulação emocional, comunicação ou convivência. Outras vivem com transtornos mentais ou condições do neurodesenvolvimento.
Autismo, esquizofrenia, transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline são condições distintas, com características e necessidades diferentes. Nenhuma delas deve ser confundida com falta de caráter, intenção de prejudicar ou propensão inevitável à violência.
Termos como sociopatia e psicopatia também aparecem frequentemente em discussões populares sobre manipulação e comportamentos antissociais. Entretanto, não devem ser utilizados como diagnósticos improvisados ou insultos. Traços de personalidade e transtornos exigem avaliação clínica adequada e não podem ser inferidos simplesmente de uma opinião, atitude desagradável ou divergência política.
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos ressalta, por exemplo, que a maioria das pessoas com esquizofrenia não é violenta e que essas pessoas estão mais sujeitas a sofrer violência do que indivíduos sem a condição.
O que devemos observar são comportamentos concretos, como ameaças, violência, coerção, exploração, mentiras deliberadas e violações de direitos.
Ao mesmo tempo, considero inadmissível que a saúde mental continue sendo tratada como uma preocupação secundária pelas políticas públicas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta uma condição de saúde mental, muitas vezes sem identificação ou atendimento adequado.
Precisamos de políticas de prevenção desde a infância, ambientes escolares seguros, orientação às famílias, educação emocional, combate ao bullying e acesso efetivo a profissionais qualificados.
Precisamos também de serviços públicos que acolham pessoas com sofrimento psicológico, transtornos mentais e deficiências, sem estigmatização, abandono ou exclusão social.
Uma sociedade que pretende garantir dignidade não pode cuidar apenas da sobrevivência física de seus cidadãos. Precisa reconhecer a importância da saúde mental, dos vínculos sociais, do pertencimento e das oportunidades de desenvolvimento humano.
E isso não elimina a responsabilidade individual por comportamentos prejudiciais. Explicar as circunstâncias que influenciam uma conduta não significa justificá-la automaticamente.
Cuidar da saúde mental e responsabilizar pessoas por atos ilícitos são compromissos que podem e devem coexistir.
No que eu acredito e que sociedade desejo construir #
Depois de tantos alertas sobre manipulação, desinformação e interesses ocultos, considero importante declarar os valores que orientam meus posicionamentos.
Eu busco o bem. Quero contribuir para uma sociedade mais justa, livre, democrática, laica, solidária e comprometida com a dignidade humana.
Politicamente, identifico-me mais com a centro-esquerda, especialmente com a tradição social-democrática e a esquerda democrática. Acredito na democracia representativa, nas liberdades individuais, no pluralismo político, no Estado democrático de direito, na justiça social e em políticas públicas voltadas à redução das desigualdades.
Essa identificação não significa concordância automática com partidos, lideranças ou movimentos que utilizam esses mesmos termos. Não considero minha posição política uma identidade que precise defender a qualquer custo.
Acredito que devemos construir uma sociedade na qual todas as pessoas possam viver bem, desenvolver suas capacidades, exercer suas liberdades e encontrar condições materiais para uma existência digna.
Mas não acredito em uma sociedade homogênea. Tampouco considero isso desejável.
A humanidade é diversa por natureza e por história. Somos resultado de processos evolutivos, de variações biológicas individuais, de experiências pessoais, de transformações culturais e de incontáveis circunstâncias ambientais e sociais.
Nascemos em lugares diferentes, sob condições climáticas e geográficas distintas. Crescemos em sociedades com histórias, tradições, idiomas, religiões, costumes e formas de organização próprias. Temos famílias, oportunidades, experiências e trajetórias que não são iguais.
Mesmo pessoas que crescem no mesmo ambiente podem desenvolver interesses, personalidades, capacidades e perspectivas profundamente diferentes.
Essa diversidade não estabelece uma hierarquia de valor entre os seres humanos.
Igualdade de direitos e dignidade não significa que todas as pessoas sejam iguais em suas características, necessidades, capacidades ou escolhas.
Não pretendo que todos pensem da mesma maneira, compartilhem minhas crenças, tenham os mesmos gostos ou vivam segundo um modelo único.
Quero que todos tenham condições de desenvolver suas próprias vidas, respeitando as liberdades e os direitos das demais pessoas.
Acredito em uma sociedade na qual diferenças religiosas, culturais, étnicas, políticas, filosóficas, sexuais e individuais possam coexistir sem que um grupo reivindique o direito de perseguir, submeter ou eliminar outro.
Liberdade, igualdade e respeito às diferenças #
Defendo a liberdade religiosa e a liberdade de não professar religião alguma.
Não acredito que alguém precise de uma religião para ser uma pessoa boa. Se o único motivo para não fazer o mal é o medo de uma punição divina ou a expectativa de uma recompensa, isso talvez diga pouco sobre caráter. Para mim, fazer o que é certo é reconhecer a dignidade do outro e agir de acordo com esse reconhecimento, inclusive quando ninguém está olhando.
Isso não significa que pessoas religiosas sejam menos éticas. Há pessoas profundamente generosas em muitas religiões e também entre quem não tem fé; há hipocrisia em ambos os lados. O que rejeito é tratar a crença ou a frequência a uma igreja, templo, mesquita ou sinagoga como certificado automático de superioridade moral.
Defendo igualdade de direitos, igualdade entre homens e mulheres, o combate ao racismo e à discriminação e a liberdade para cada pessoa viver sua identidade de gênero, sua orientação sexual e sua consciência com dignidade e respeito. Ninguém deveria ter mais ou menos direitos por sua religião, sexo, gênero, orientação sexual, etnia ou por qualquer outra característica. Cada pessoa deve ser livre para crer, não crer, mudar de crença, amar quem quiser e ser quem é.
A bondade não pertence a nenhuma religião. Ela aparece na empatia, na justiça, no respeito e nas ações concretas com que tratamos as outras pessoas. E, se existir um “céu”, acredito que um humanista secular que viveu praticando o bem e defendendo a dignidade alheia tem mais razões para estar lá do que um falso moralista que professou uma fé, mas não praticou aquilo que dizia acreditar.
Um Estado laico não é um Estado contrário à religião, mas aquele que não impõe crenças religiosas nem privilegia determinados grupos religiosos perante a lei.
Também denuncio projetos de Estado que definem a identidade nacional como propriedade exclusiva de uma etnia, raça ou religião e usam esse ideal para conceder direitos, pertencimento e proteção a uns, enquanto submetem outros à exclusão, à expulsão ou à violência. Um governo pode valorizar uma cultura sem negar a igualdade; o limite é cruzado quando a identidade oficial se converte em hierarquia de cidadania e em política de perseguição. Nesses casos, não se trata de simples preferência simbólica: há discriminação institucional e segregação, que precisam ser nomeadas e combatidas.
Os termos jurídicos também exigem precisão. O apartheid é um regime institucionalizado de opressão e dominação sistemática de um grupo racial sobre outro, mantido por atos desumanos; genocídio exige atos definidos em lei e a intenção específica de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Por isso, um Estado que privilegia uma identidade pode praticar discriminação sem que, só por esse fato, esteja juridicamente caracterizado apartheid ou genocídio. Essa distinção não diminui a gravidade da exclusão nem impede que políticas discriminatórias sejam alertas de violência futura. A Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial define discriminação racial por distinções ou restrições que prejudiquem o exercício igual de direitos; o Estatuto de Roma e a definição da ONU para genocídio estabelecem os elementos específicos desses crimes.
Ninguém deveria ser obrigado a adotar uma religião, abandonar sua fé ou seguir princípios religiosos que não compartilha.
Da mesma forma, ninguém deveria ter sua orientação sexual, sua identidade ou suas relações afetivas controladas pela vontade de terceiros.
Defendo os direitos das pessoas LGBTQIA+, incluindo o direito de viver suas identidades, relações afetivas e projetos de vida sem discriminação, violência ou coerção.
Defendo a igualdade de gênero, a igualdade de remuneração por trabalho de igual valor, o combate ao machismo, à misoginia, ao racismo, à LGBTfobia e a todas as formas de discriminação que neguem a dignidade humana.
Defendo a proteção integral de crianças e adolescentes, o combate à violência sexual, ao abuso e à exploração sexual infantil, a prevenção da violência e o acolhimento das vítimas.
Não aceito que diferenças religiosas, culturais, étnicas, políticas, filosóficas, sexuais ou individuais sejam utilizadas como justificativa para desumanizar, perseguir ou eliminar pessoas.
Ao mesmo tempo, respeitar uma pessoa não exige concordar com suas opiniões. É legítimo contestar ideias, investigar afirmações, criticar instituições e denunciar comportamentos prejudiciais.
O que não considero aceitável é transformar diferenças em justificativas para a perseguição sistemática, a discriminação ou a violência contra grupos inteiros.
Não quero uma sociedade em que um grupo procure eliminar outro por sua religião, origem, cor, orientação sexual ou posicionamento político.
Não quero que divergências sejam utilizadas como pretexto para retirar a dignidade humana de alguém.
A liberdade de uma pessoa não deveria depender da submissão de outra.
Tolerância não significa aceitar a intolerância sem limites #
Defender os direitos humanos não significa ser ingênuo diante de pessoas, organizações ou movimentos que procuram destruir os direitos alheios.
Não acredito em uma liberdade de expressão absolutamente irrestrita, capaz de servir como justificativa para ameaças, incitação à violência, perseguição ou discriminação.
A liberdade de expressão é um direito fundamental para qualquer democracia. Ela protege inclusive opiniões incômodas, controversas, impopulares e críticas ao próprio governo.
Entretanto, seu exercício convive com outros direitos igualmente fundamentais, como a vida, a dignidade, a igualdade e a segurança das pessoas.
O artigo 19 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos reconhece a liberdade de expressão e admite restrições legalmente estabelecidas que sejam necessárias para proteger determinados direitos e interesses legítimos.
Seu artigo 20 estabelece a proibição legal de manifestações específicas de apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que constituam incitação à discriminação, à hostilidade ou à violência.
A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece, em seus artigos 29 e 30, que o exercício dos direitos deve respeitar os direitos e as liberdades das demais pessoas e que nenhum de seus dispositivos pode ser interpretado como autorização para destruir os direitos nela reconhecidos.
Minha preocupação não é impedir que alguém discorde de mim.
É impedir que a liberdade seja instrumentalizada para destruir as condições que permitem a existência da própria liberdade.
A história demonstra a gravidade desse risco. O nazismo promoveu perseguição sistemática, a destruição de instituições democráticas, a supressão de liberdades e o genocídio de milhões de pessoas.
O culto em torno de Hitler foi construído pela propaganda nazista, que o apresentou como salvador e encarnação da nação, enquanto criminalizava a crítica e perseguia quem era tratado como inimigo. Mussolini também cultivou um culto à própria imagem, e Stalin foi exaltado pela propaganda soviética. Esses cultos de personalidade surgiram em contextos diferentes, mas compartilham um perigo: substituir a avaliação dos atos e das evidências pela devoção ao líder. A mesma cautela vale para grupos organizados em torno de uma autoridade incontestável. O Peoples Temple, movimento religioso liderado por Jim Jones, terminou na morte de mais de 900 pessoas em Jonestown, em 1978; o episódio envolveu assassinatos e coerção, e crianças também estavam entre as vítimas. A pesquisa histórica sobre Jonestown também lembra que não devemos apagar a humanidade dos membros ao condenar a violência e o poder exercido pelo líder. Não são histórias idênticas, mas todas mostram o custo extremo de concentrar poder sem permitir contestação.
Também denuncio o apartheid sul-africano, um sistema estatal de segregação e discriminação racial que retirou direitos e impôs desigualdades por meio da lei. Não era apenas preconceito individual: era uma estrutura política que organizava a vida das pessoas segundo classificações raciais.
A liberdade de expressão não deve servir de salvo-conduto para desumanizar grupos, espalhar propaganda de ódio ou defender sua perseguição. Usar um direito para destilar ódio e negar os direitos de outras pessoas contradiz a própria ideia de liberdade. Isso não torna toda fala ofensiva um crime nem autoriza censura arbitrária: como estabelece o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, a incitação à discriminação, à hostilidade ou à violência tem um limiar específico, e as restrições devem respeitar as garantias democráticas.
Não quero que movimentos dessa natureza voltem a conquistar poder e a transformar o ódio em política de Estado.
Em Como as democracias morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt examinam como a democracia pode ser enfraquecida por dentro, inclusive por líderes que chegam ao poder por eleições e depois atacam gradualmente as regras, as instituições e as normas que limitam sua autoridade. O alerta que levo do livro é que eleições, sozinhas, não garantem uma democracia saudável: também importam a fiscalização do poder, a legitimidade da oposição e a disposição de aceitar limites. Essa análise é um ponto de partida para investigar casos concretos, não uma licença para chamar qualquer adversário de autoritário.
No Brasil, a Lei nº 7.716/1989 criminaliza determinadas práticas de discriminação e, em seu artigo 20, também prevê punição para a fabricação, comercialização, distribuição ou veiculação de símbolos e propaganda que utilizem a suástica para divulgação do nazismo.
Isso não significa defender a censura arbitrária, a perseguição de opositores ou a criminalização de opiniões simplesmente porque são desagradáveis.
Os limites à liberdade de expressão precisam ser definidos em lei, justificados por finalidades legítimas, necessários e proporcionais, sujeitos a controle judicial e compatíveis com uma sociedade democrática.
Caso contrário, o próprio combate à intolerância pode ser transformado em instrumento de autoritarismo.
Não quero uma democracia indefesa diante da violência, mas também não quero um Estado que possa chamar qualquer discordância de ameaça à democracia.
Guerra, autoritarismo e responsabilidade #
Sou contra guerras porque elas produzem sofrimento em massa, destroem comunidades e deixam traumas que podem atravessar gerações. Violência indiscriminada não resolve, por si só, problemas políticos, sociais ou culturais. Bombardear cidades e ampliar conflitos pode multiplicar mortes, deslocamentos, ressentimento, radicalização e instabilidade. A guerra também pode ser usada por governos para deslocar a atenção de fracassos internos ou reunir apoio em torno de uma ameaça externa. Essa possibilidade é estudada na política internacional, mas não explica automaticamente todo conflito: as pesquisas sobre a chamada teoria da guerra diversionária têm resultados controversos e evidências empíricas mistas. Por isso, a hipótese deve ser examinada em cada caso, não presumida. Uma revisão acadêmica discute os limites dessa teoria.
Sou contrário às práticas autoritárias do governo iraniano, especialmente à repressão contra mulheres, à perseguição de jornalistas e à criminalização e violência dirigidas a pessoas LGBTQ+. Uma missão independente da ONU documentou graves violações no contexto da repressão aos protestos, incluindo perseguição baseada em gênero e violações contra pessoas LGBTQ+; seu relatório ao Conselho de Direitos Humanos detalha essas conclusões. Criticar um regime teocrático e defender os direitos de quem vive sob ele não significa desejar sofrimento coletivo à população iraniana nem tratar uma guerra como resposta automática.
Também tenho críticas profundas aos Estados Unidos: às desigualdades e ao racismo persistente, ao excepcionalismo nacional e a intervenções internacionais justificadas em nome da liberdade ou da democracia, mas atravessadas por interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos. Ao mesmo tempo, seria desonesto reduzir toda a história do país a essas contradições. Instituições, movimentos e pessoas nos Estados Unidos também contribuíram para avanços em direitos civis, liberdades, ciência e tecnologia. Países não são blocos morais uniformes. É preciso avaliar governos, decisões e instituições concretas sem apagar as contradições de sua história.
Também separo governos de populações. Nem todo iraniano apoia o regime em que vive; nem todo americano concorda com as decisões militares ou políticas de seu governo. Em ambos os países há dissidentes, ativistas, jornalistas e cidadãos comuns que tentam transformar suas sociedades. A população de um país não deve ser tratada como extensão automática de seu governo, muito menos como alvo coletivo por suas decisões.
Não sou pacifista absoluto. A história mostra situações em que a força pode se tornar necessária para impedir agressões e massacres. Considero que a derrota do nazismo e a contenção do expansionismo militar japonês exigiram resistência armada, depois de a diplomacia ter falhado em evitar a guerra. Isso não torna a guerra desejável nem prova que qualquer intervenção posterior seja legítima. É um julgamento sobre contextos históricos específicos, não uma autorização geral para usar força.
Para mim, a pergunta não é quem merece ser destruído. É se a guerra é realmente o último recurso, se houve uma tentativa séria de diplomacia, se o objetivo é proteger vidas e direitos ou ampliar poder e influência, se os meios são proporcionais e quem está pagando o preço. Uma analogia com a violência dentro de uma comunidade tem limites, mas a lógica é semelhante: eliminar pessoas não corrige as causas estruturais de um conflito e costuma deixar mais trauma e ressentimento. Se uma guerra se torna inevitável, deve ser encarada como um fracasso da política, não celebrada como solução.
Justiça não é vingança #
Reconhecer a existência de pessoas que causam danos deliberadamente também significa reconhecer a necessidade de responsabilização.
Entretanto, ninguém deve ser considerado culpado apenas porque é acusado, porque pertence a determinado grupo ou porque suas opiniões provocam indignação.
A responsabilização deve ocorrer por condutas concretas, com fundamento jurídico e evidências verificáveis.
Defendo o devido processo legal, a presunção de inocência, o contraditório, a ampla defesa, a imparcialidade judicial e a proporcionalidade das sanções.
Essas garantias não são obstáculos à justiça. São parte essencial dela.
Também não podemos tratar violência estatal ou morte como respostas simples para crimes graves. O Estado é formado por pessoas e instituições falíveis. Investigações podem se apoiar em reconhecimentos equivocados, confissões obtidas sob pressão ou provas manipuladas; processos podem ignorar elementos que inocentariam alguém, violar garantias ou demorar tanto que a correção chega tarde demais. Quando o Estado erra, o custo não é abstrato: alguém perde anos de liberdade, vínculos, saúde e oportunidades. E, se a punição for irreversível, uma revisão posterior não devolve a vida.
No Brasil, o mecânico Marcos Mariano da Silva passou 19 anos preso injustamente em episódios de encarceramento indevido. O Superior Tribunal de Justiça reconheceu a responsabilidade do Estado e registrou que ele permaneceu por quase 13 anos sem condenação ou procedimento criminal que justificasse aquela prisão, além de ter sido preso anteriormente por engano. Em outro país, três homens do Queens passaram cerca de 24 anos presos por um crime que não cometeram, até que novas evidências levaram à anulação das condenações; o caso foi documentado pelo El País. Os contextos e as falhas não são iguais, mas ambos mostram que condenações podem sobreviver por anos antes de serem corrigidas.
Esses casos não provam que todo processo seja injusto, nem que vítimas devam ficar sem proteção ou que a responsabilização seja dispensável. Mostram por que a força do Estado precisa de limites, controle independente e possibilidade real de revisão. Defender a vida e o devido processo não é minimizar a violência cometida por indivíduos; é recusar que o poder público responda a ela com uma violência sem possibilidade de reparação.
Uma sociedade democrática precisa dispor de instituições capazes de investigar irregularidades, proteger vítimas, impedir abusos e responsabilizar aqueles que violam a lei. Mas essas instituições também precisam ser fiscalizadas e submetidas aos limites constitucionais.
Não considero legítimo torturar, perseguir, humilhar ou eliminar pessoas sob a justificativa de que representam uma ameaça.
Da mesma forma, não acredito que alguém deva receber imunidade por sua popularidade, poder econômico, influência política, religião ou alinhamento ideológico.
Os direitos fundamentais devem proteger inclusive as pessoas que desprezamos, aquelas com quem discordamos profundamente e aquelas acusadas dos atos mais graves.
A justiça não pode funcionar como instrumento de vingança pessoal ou política.
Defender a responsabilização de quem viola direitos não significa abandonar os direitos dessa pessoa.
É precisamente nos casos mais difíceis que precisamos demonstrar nosso compromisso com os princípios que afirmamos defender.
Dignidade também significa ter condições de viver #
Defendo um modelo de Estado de bem-estar social, com políticas públicas capazes de reduzir desigualdades e garantir condições materiais para que as pessoas possam exercer suas liberdades.
Quero uma sociedade em que educação, saúde, segurança, moradia, alimentação, saneamento, cultura e lazer sejam tratados como necessidades fundamentais, não como privilégios reservados àqueles que podem pagar.
Uma sociedade em que crianças tenham acesso à educação de qualidade, em que jovens possam ingressar em universidades e instituições de ensino superior sem que sua origem social determine antecipadamente suas oportunidades, e em que a pesquisa científica, a tecnologia e o conhecimento sejam valorizados.
Quero serviços públicos de qualidade, com responsabilidade, transparência, fiscalização e compromisso com a população.
Acredito que o Estado deva ter um papel ativo na garantia de direitos sociais e na redução de desigualdades, sem que isso signifique estar acima de críticas ou dispensado de prestar contas.
Também acredito que a vida humana não deveria se resumir a trabalhar para sobreviver.
Quero que trabalhadores tenham salários dignos, condições justas de trabalho e tempo para viver.
Tempo para estudar, descansar, praticar esportes, conhecer outros lugares, participar de atividades culturais, cultivar amizades, conviver com seus filhos, seus pais, seus companheiros e suas famílias.
Tempo para existir além das obrigações profissionais.
Não acredito que todas as pessoas alcançarão os mesmos resultados. Temos interesses, capacidades, circunstâncias e decisões diferentes. Mas acredito que devemos trabalhar para reduzir desigualdades injustas e assegurar um patamar de dignidade que não dependa exclusivamente da sorte de nascer em determinada família ou lugar.
Também desconfio de uma narrativa conveniente: quando alguém prospera, o resultado vira prova de mérito individual; quando uma empresa ou um setor fracassa, a culpa passa a ser do governo. Esforço e decisões pessoais importam, assim como políticas públicas, condições de partida e circunstâncias econômicas. O governo pode, sim, ter responsabilidade por um fracasso, mas apontá-lo como culpado sem mostrar por quais decisões e mecanismos não explica o que aconteceu. O mesmo rigor deve valer para atribuir o sucesso exclusivamente ao mérito.
Para mim, desenvolvimento econômico não deveria ser medido apenas pelo crescimento da produção ou pela acumulação de riqueza, mas também pelas condições de vida que proporciona à população.
De que adianta uma sociedade produzir cada vez mais riqueza se parte de sua população continua sem acesso ao básico, sem segurança material, sem perspectivas ou sem tempo para usufruir da própria existência?
Acredito que o progresso deve estar associado à ampliação das liberdades, à redução do sofrimento evitável, ao conhecimento, à justiça social e à dignidade humana.
Os direitos humanos como fundamento #
Essas convicções encontram fundamento nos princípios da Carta das Nações Unidas, de 1945, e especialmente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948.
A Carta da ONU estabelece os propósitos e princípios da organização internacional. A Declaração Universal, por sua vez, apresenta direitos fundamentais que devem ser reconhecidos a todas as pessoas.
O artigo 1º afirma a igualdade em dignidade e direitos. O artigo 2º reconhece a universalidade desses direitos, sem distinções como raça, sexo, idioma, religião, opinião política ou origem social.
O artigo 18 reconhece a liberdade de pensamento, consciência e religião. O artigo 19 protege a liberdade de opinião e expressão. O artigo 21 trata da participação política e da legitimidade de governos fundamentados na vontade popular.
Os artigos 22 a 27 reconhecem direitos sociais, econômicos e culturais, incluindo proteção social, trabalho digno, igualdade de remuneração, descanso, lazer, saúde, educação e participação na vida cultural.
Esses princípios constituem uma das principais referências éticas que procuro seguir.
Não considero os direitos humanos uma concessão reservada a pessoas de quem gosto, a grupos com os quais concordo ou àqueles que compartilham minhas convicções. São direitos universais, inclusive de quem pensa de maneira completamente diferente de mim.
Isso também significa que meus valores não me colocam acima das demais pessoas.
Defender justiça não me torna automaticamente justo. Defender igualdade não impede que eu reproduza preconceitos. Defender a democracia não significa que todas as minhas opiniões ou propostas sejam democráticas.
E defender direitos humanos não significa que eu esteja sempre correto ao interpretar situações concretas.
Minhas intenções declaradas não são evidência suficiente da minha integridade. Minhas ações, meus argumentos e minha disposição para reconhecer erros também precisam ser avaliados.
Talvez eu realmente acredite em tudo isso. Talvez minhas atitudes sejam coerentes com esses princípios. Talvez eu esteja equivocado em algumas das soluções que defendo.
Você não tem obrigação de aceitar minhas palavras como prova de nada.
O que apresento aqui são meus valores, não um certificado de honestidade.
Obras que considero importantes para refletir sobre tudo isso #
A literatura, o cinema, as histórias em quadrinhos e as séries de televisão podem nos ajudar a refletir sobre estruturas de poder, autoritarismo, propaganda, desigualdade, liberdade e comportamento humano.
Não considero obras de ficção substitutos para pesquisas históricas, dados científicos ou investigações jornalísticas. São interpretações artísticas que podem apresentar críticas, exageros, alegorias e cenários hipotéticos.
Também não acredito que uma obra tenha necessariamente uma única interpretação política. Autores, personagens e espectadores podem apresentar perspectivas divergentes.
Ainda assim, algumas histórias oferecem oportunidades interessantes para questionar nossas certezas e compreender mecanismos de controle social.
Estas são algumas obras que considero relevantes:
V de Vingança (V for Vendetta) — História em quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd, posteriormente adaptada para o cinema. Apresenta uma sociedade submetida a um regime autoritário, com perseguição política, propaganda estatal, vigilância e repressão. Permite refletir sobre resistência, liberdade e os limites éticos do uso da violência contra a opressão.
Silo (Apple TV) — Série baseada nos livros de Hugh Howey. Em uma sociedade confinada a uma gigantesca instalação subterrânea, o acesso ao conhecimento é limitado e as autoridades controlam informações fundamentais sobre o mundo exterior. A obra permite refletir sobre censura, ignorância deliberadamente produzida, obediência e a importância de questionar narrativas oficiais.
Jogos Vorazes (The Hunger Games) — Série de romances de Suzanne Collins adaptada para o cinema. Apresenta uma sociedade profundamente desigual, submetida a um regime autoritário que utiliza violência, espetáculos e propaganda para manter sua estrutura de poder. Explora desigualdade social, exploração econômica, manipulação midiática e resistência política.
1984, de George Orwell — Romance distópico que aborda vigilância em massa, repressão política, manipulação da linguagem, falsificação da história e controle da informação. A obra convida à reflexão sobre os riscos de governos que procuram monopolizar a definição da verdade.
A Revolução dos Bichos, de George Orwell — Fábula política sobre uma revolução cujas promessas de igualdade são progressivamente traídas pela concentração de poder. É uma crítica ao autoritarismo, à corrupção dos ideais revolucionários e à manipulação da memória coletiva.
Fahrenheit 451, de Ray Bradbury — Romance que apresenta uma sociedade na qual os livros são proibidos e destruídos. Explora censura, conformismo, superficialidade cultural e a perda do pensamento crítico.
O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), de Margaret Atwood — Romance adaptado para a televisão que retrata uma teocracia autoritária na qual mulheres são submetidas a severas restrições de direitos e autonomia. Permite refletir sobre fundamentalismo religioso, controle dos corpos, misoginia e repressão institucional.
Admirável Mundo Novo (Brave New World), de Aldous Huxley — Romance distópico no qual a estabilidade social é mantida por condicionamento psicológico, hierarquias e mecanismos de satisfação e controle. Oferece uma perspectiva diferente sobre a perda da liberdade, não apenas pela força, mas também pela manipulação dos desejos e comportamentos.
Andor — Série do universo Star Wars que explora a expansão de um regime imperial autoritário, seus mecanismos de repressão, vigilância e exploração e a formação de movimentos de resistência. Também apresenta dilemas morais e conflitos internos entre aqueles que combatem o poder estabelecido.
A Onda (Die Welle, 2008) — Filme alemão que apresenta um experimento escolar sobre autoritarismo e conformidade social. Mostra como pertencimento, disciplina, identidade coletiva e obediência podem contribuir para a formação de um movimento autoritário.
The Boys — Série que utiliza super-heróis para satirizar celebridades, corporações, propaganda, poder político e culto à personalidade. Explora como a imagem pública pode ser construída artificialmente e como a popularidade pode funcionar como proteção contra a responsabilização.
Ruptura (Severance, Apple TV) — Série sobre trabalhadores que passam por um procedimento capaz de separar suas memórias profissionais e pessoais. Levanta questões sobre autonomia, identidade, ética empresarial e os limites da autoridade das organizações sobre a vida humana.
Black Mirror — Série antológica que explora os impactos sociais e psicológicos das tecnologias. Diversos episódios abordam vigilância, reputação digital, manipulação algorítmica, exploração de dados, desinformação e perda de autonomia.
3% — Série brasileira ambientada em uma sociedade marcada por extrema desigualdade, na qual a possibilidade de ascensão social depende de um processo seletivo altamente competitivo. Permite discutir meritocracia, privilégios, exclusão e desigualdade de oportunidades.
O Show de Truman (The Truman Show, 1998) — Filme sobre um homem cuja vida é transformada em um programa de televisão sem seu conhecimento. Explora manipulação da realidade, controle da informação, exploração midiática e liberdade individual.
Matrix (1999) — Filme de ficção científica que apresenta uma realidade percebida que não corresponde às condições reais de existência de seus habitantes. Pode servir como ponto de partida para reflexões filosóficas sobre conhecimento, percepção, autonomia e ceticismo.
Duna (Dune), de Frank Herbert — Obra de ficção científica que explora religião, poder, imperialismo, exploração de recursos, profecias e construção de lideranças messiânicas. É especialmente interessante para refletir sobre os perigos de entregar a um líder carismático uma autoridade quase incontestável.
Maus, de Art Spiegelman — História em quadrinhos que retrata a experiência de sobreviventes do Holocausto, incluindo a trajetória do pai do autor. Permite refletir sobre antissemitismo, desumanização, perseguição e as consequências históricas do nazismo.
A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) — Drama histórico sobre o Holocausto, centrado em Oskar Schindler e seus esforços para salvar judeus perseguidos pelo regime nazista. Oferece uma oportunidade de reflexão sobre responsabilidade individual, cumplicidade, solidariedade e coragem moral.
Filhos da Esperança (Children of Men, 2006) — Filme distópico ambientado em uma sociedade marcada por crise, autoritarismo e perseguição a imigrantes. Explora desumanização, medo coletivo, violência estatal e a preservação da esperança em circunstâncias extremas.
Não Olhe para Cima (Don’t Look Up, 2021) — Filme satírico que explora a desinformação, a comunicação científica, a influência de interesses políticos e econômicos e a dificuldade de enfrentar problemas coletivos mesmo diante de evidências.
Pós-verdade: A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news, de Matthew D’Ancona — Livro que analisa o enfraquecimento da autoridade dos fatos no debate público, a influência das emoções e o papel das plataformas digitais na disseminação de narrativas. É uma contribuição para discutir a relação entre política, comunicação e verdade, embora suas interpretações também devam ser avaliadas criticamente.
Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, do Meteoro Brasil — Livro que discute desinformação, conspiracionismo e a circulação de discursos políticos apresentados como conhecimento. É uma leitura voltada à crítica de determinadas narrativas ideológicas e à importância de investigar aquilo em que acreditamos.
Essas obras não devem ser reduzidas à ideia de que representam exclusivamente a esquerda ou a direita. Algumas criticam regimes associados a diferentes tradições ideológicas, outras examinam estruturas de poder, sociedades autoritárias ou contradições humanas que ultrapassam classificações partidárias.
O objetivo não é assistir a uma obra procurando apenas personagens que confirmem nossas opiniões políticas.
É observar os comportamentos, os mecanismos de poder, as justificativas utilizadas pelos personagens e as consequências de suas decisões.
Também é necessário lembrar que reconhecer semelhanças entre uma ficção e acontecimentos reais não significa demonstrar que sejam equivalentes.
A ficção pode nos ensinar a formular perguntas. A investigação dos fatos é que deve orientar nossas respostas sobre a realidade.
Desconfie até de quem pede sua confiança #
Existe algo especialmente perigoso em discursos que se apresentam como moralmente superiores e imunes ao questionamento.
Pessoas podem utilizar palavras como liberdade, justiça, democracia, verdade, família, patriotismo, ciência, religião e direitos humanos para defender ideias muito diferentes, inclusive contraditórias.
Esses conceitos não perdem seu significado porque alguém os utiliza de maneira oportunista. Mas seu emprego, isoladamente, não demonstra que determinada pessoa ou organização esteja agindo de acordo com eles.
Alguém pode afirmar que defende a liberdade enquanto propõe restringir direitos de outras pessoas. Pode declarar amor à verdade enquanto divulga informações que nunca verificou. Pode afirmar que protege a democracia enquanto rejeita mecanismos legítimos de fiscalização e responsabilização.
E também pode denunciar essas contradições de maneira seletiva, ignorando comportamentos semelhantes entre seus próprios aliados.
Por isso, cuidado com discursos que exigem lealdade incondicional, que transformam toda crítica em perseguição, que apresentam qualquer discordância como prova de ignorância ou maldade, ou que dividem sistematicamente a sociedade entre pessoas supostamente puras e inimigos que devem ser combatidos.
Cuidado com quem oferece respostas simples para problemas complexos. Com quem promete revelar uma verdade que ninguém mais conhece. Com quem utiliza seu medo, sua indignação ou seu sentimento de pertencimento para fazer você abandonar a própria capacidade de questionar.
E cuidado comigo também.
Eu posso escrever um texto inteiro defendendo a liberdade, a democracia e os direitos humanos e ainda assim apresentar uma interpretação errada, uma informação descontextualizada ou uma conclusão injustificada.
Não permita que a admiração por uma pessoa substitua a avaliação de seus argumentos.
Por que estou escrevendo isto? #
Porque este blog contém minhas interpretações, experiências, estudos, críticas e posicionamentos. Não tenho a pretensão de ser neutro em todos os assuntos. Tenho valores, convicções e preferências, assim como qualquer outra pessoa.
Mas ter valores não deveria significar abandonar o compromisso com a realidade.
Quero poder criticar autoridades, governos, ideologias, instituições e comportamentos, inclusive aqueles com os quais me identifico. Quero poder reconhecer erros sem interpretar isso como uma derrota pessoal.
E espero que você faça o mesmo com aquilo que encontrar aqui.
Quando eu apresentar uma informação, procure sua fonte original. Quando citar uma estatística, verifique o período, a metodologia e o contexto. Quando fizer uma interpretação, considere explicações alternativas. Quando criticar alguém, procure entender exatamente o que essa pessoa disse ou fez.
Não substitua uma autoridade por outra. Não troque uma bolha por outra. Não confunda indignação com evidência, nem identificação emocional com conhecimento.
E, principalmente, não presuma que está imune à manipulação apenas porque aprendeu a reconhecer algumas de suas técnicas.
Minha denúncia é esta: nossa percepção da realidade pode ser moldada, explorada e distorcida, e nem sempre temos consciência disso.
A solução não é desconfiar indiscriminadamente de tudo e de todos, pois isso também nos torna vulneráveis à manipulação. A solução é desenvolver critérios melhores para avaliar aquilo em que acreditamos.
Não precisamos conhecer todas as respostas. Precisamos aprender a formular perguntas melhores, reconhecer os limites do nosso conhecimento e distinguir aquilo que sabemos daquilo que apenas supomos.
Se você encontrar um erro neste blog, questione. Se encontrar uma conclusão sem sustentação, cobre evidências. Se descobrir informações que contradigam o que escrevi, apresente-as.
Não quero que você concorde comigo por lealdade, afinidade ou conveniência. Quero que as ideias aqui apresentadas possam ser examinadas, contestadas e corrigidas.
Porque a verdade não pertence a mim, a você, a um partido, a um governo ou a uma instituição.
Não confie em mim. Verifique tudo o que eu digo. Desconfie das suas próprias certezas. E aplique o mesmo princípio àquilo em que você já acredita.